Quase foi o “liberou geral”

Adotando ativismo judicial e cada vez menos preocupado em exercer suas funções elementares, como a de guardião da Constituição e da estabilidade do País, o Supremo encontra-se ainda mais desmoralizado perante a sociedade brasileira

Sérgio Pardellas

Em 1968, durante uma sessão plenária do Supremo Tribunal Federal, o então ministro Adauto Lúcio Cardoso, envergonhado de seus pares que haviam acabado de legitimar a censura à imprensa, despiu-se da toga e a arremessou longe. Hoje, com raríssimas exceções, o STF se ressente de ministros com a coragem do ex-colega da Corte. O STF alcançou o estágio de desmoralização atual porque muitos ali são incapazes de distinguir espírito de grandeza de grandeza de espírito. Enquanto o primeiro lhes sobra, falta-lhes o outro. Contrariando o artigo 102 da Carta Magna, o STF, em vez de guardião da Constituição e fiador da estabilidade, tornou-se nos últimos tempos um vetor de insegurança jurídica e desagregação social. O ativismo judicial do qual investiram-se certos ministros não apenas envergonha a Nação, como concorre para desacreditar o Judiciário perante a sociedade brasileira. Para atender a interesses inconfessáveis, certos integrantes do STF não se importam em enlamear as próprias togas — paramentos que deveriam ser o símbolo sacrossanto da imparcialidade e seriedade da Corte, mas que viraram a representação e o retrato mais bem acabado da perda completa de noção ética.

Não há mais como descer na escala da degradação institucional. Na quarta-feira 19, um dia antes do recesso do Judiciário, a presepada burlesca dos homens de preto alcançou o seu auge, quando o ministro Marco Aurélio Mello resolveu, com uma canetada, libertar todos os 169 mil presos que foram condenados no País por tribunais de segunda instância. Uma medida que — sabe-se — pretendia alcançar o mais notório deles, o ex-presidente Lula, que há seis meses vê o sol nascer quadrado a partir de uma sala-cela na sede da Polícia Federal em Curitiba. A aberração jurídica de Marco Aurélio durou apenas pouco mais de cinco horas. E não libertou ninguém. Tempo suficiente, de todo modo, para vastas consequências negativas na já amarrotada imagem da instituição. É a segunda vez em dois anos que Marco Aurélio, com esperteza típica de político mal intencionado, vê-se à frente de uma decisão jurídica que contribuiu apenas para desmoralizá-lo pessoalmente e aos demais dez colegas. Em 2016, o então presidente do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), tornara-se réu por crime de peculato (desvio de dinheiro público), acusado de destinar parte da verba indenizatória do Senado para uma locadora de veículos que, para a Procuradoria Geral da República (PGR), não teria prestado serviço algum. Quatro dias depois de Renan tornar-se réu, o ministro Marco Aurélio Mello expediu uma liminar atendendo a um pedido do partido Rede Sustentabilidade, e afastou Renan da presidência do Senado. A justificativa jurídica era que Renan, como réu, não poderia fazer parte da linha sucessória da Presidência. Renan simplesmente ignorou a decisão de Marco Aurélio. Diante da iminência de uma crise entre os Poderes, o plenário do Supremo acabou por revogar a decisão.

Conhecido pelos colegas como “ministro voto vencido”, outra vez Marco Aurélio viu-se às voltas com decisões que provocam polêmica e nenhum resultado prático. “O enfrentamento à corrupção revelou na Suprema Corte uma divisão marcante”, avaliou à ISTOÉ o ministro Luís Roberto Barroso. “Passamos a viver um embate entre os defensores da nova ordem e os guardiões da velha ordem”. Na prática, o STF funciona como uma espécie de arquipélago com 11 ilhas de decisões ou 11 Supremos independentes. O próprio Marco Aurélio incentiva esse modelo ao pregar que “cada qual faça a sua parte, com desassombro”. Se os 11 togados seguirem à risca a recomendação, o vale-tudo de embates não terá fim. Barroso tornou-se um dos principais atores desses embates. Marcou o ano de 2018 sua discussão com Gilmar Mendes durante o julgamento que ratificou a prisão de Lula, quando Barroso, provocado por Gilmar, lhe respondeu: “Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso com pitadas de psicopatia”. Não era a primeira vez que vetustos senhores de toga quase iam às vias de fato no plenário. Em 2009, Gilmar Mendes já havia protagonizado um debate por demais acalorado com o ex-presidente Joaquim Barbosa. “Felizmente, a coisa mais importante que aconteceu no Brasil foi o surgimento de uma imensa demanda por integridade”, comemora Barroso. “Esse é um novo paradigma que muda a história”. Infelizmente, nem todo o STF parece ter compreendido. Hoje, o tribunal deixou de se comportar como um colegiado para tornar-se uma soma de individualidades. Não por acaso, a Corte sofre do mais absoluto descrédito.

Em setembro, Toffoli também havia sido obrigado a interferir quando Barroso declarou que havia no STF gabinetes “distribuindo senha para soltar corrupto”. A referência era justamente a Gilmar Mendes, pela notória fama que passou a ter de libertar os alvos da Lava Jato. Depois da conversa, Barroso se desculpou publicamente pelas declarações. Mas o fato é que Gilmar, em apenas uma de suas decisões, beneficiou outras 14 pessoas. Em outros casos polêmicos, ele agiu em favor do empresário do ramo de transportes Jacob Barata Filho sem se preocupar com o fato de ser padrinho de casamento da filha do empresário. O STF paga um alto preço pela tática de barata tonta com o prende-solta que virou sua marca. Desta vez, Marco Aurélio se excedeu e muito, agindo como um artífice voluntarioso de indultos natalinos indevidos, se insurgindo contra a maioria. Seu lance de esperteza às vésperas do recesso vai ficar para a história.

No mesmo mês de setembro, Toffoli interveio em nova confusão envolvendo os ministros Ricardo Lewandowski e Luiz Fux. Atendendo a um pedido da defesa do ex-presidente Lula, Lewandowski liberou o petista para conceder uma entrevista à imprensa às vésperas da eleição presidencial. A iniciativa irritou os demais. Fux, ao analisar um recurso contra a decisão de Lewandowski, não somente desautorizou o colega como impediu a divulgação da entrevista, caso ela fosse concedida. Lewandowski foi novamente acionado e ratificou sua decisão anterior. A confusão só terminou após determinação de Toffoli contrária à entrevista.

Outras estultices, porém, não puderam ser barradas. Essa mesma turma presidida por Toffoli havia prometido acabar com o auxílio moradia em troca do indecente aumento da categoria e depois foi empreendida mais uma gambiarra para que ficassem com ambos: o reajuste e o auxílio. Definitivamente, o que se vê nos corredores do Supremo não é o sacrossanto respeito ao Estado de Direito, mas a rendição a um Estado de Arbítrio, ao sabor de conveniências de ocasião. Como dizia Ruy Barbosa, a pior ditadura é a do Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer.